As castas autóctones tornaram-se moda. E quando algo se torna moda no mundo do vinho, começa a perder substância.
Nas últimas décadas, o discurso sobre castas indígenas multiplicou-se. Produtores apresentam-nas como argumento de diferenciação. Sommelliers usam-nas para justificar preços. Revistas especialistas celebram-nas como símbolo de identidade. E o consumidor, confrontado com nomes como Alfrocheiro, Trincadeira, Encruzado ou Rabigato, sente que está a beber algo único, ligado à terra, irrepetível.
Mas há uma pergunta que raramente se faz: a casta autóctone está realmente a ser trabalhada com rigor, ou o que se vende é apenas o discurso da sua existência?
1. O que significa ser autóctone
Uma casta autóctone é uma variedade com origem numa região específica, adaptada ao longo de séculos às suas condições climáticas, de solo e culturais. É diferente de uma casta internacional como Cabernet Sauvignon ou Chardonnay, que foram propagadas pelo mundo inteiro e crescem bem em latitudes e solos muito diferentes.
Portugal é um caso extraordinário: com menos de 90.000 hectares de vinha, tem mais de 250 castas autóctones identificadas. É uma das maiores concentrações de diversidade genética do mundo. Este é, de facto, um património extraordinário — e é legítimo que se fale dele.
O problema começa quando o discurso substitui o trabalho.
2. O discurso fácil da autenticidade
Dizer que se trabalha com castas autóctones é hoje quase obrigatório para qualquer produtor que queira ser levado a sério. É uma declaração de princípios. Mas declarações de princípios não fazem vinhos.
Uma casta autóctone plantada no lugar errado, vindimada na altura errada, vinificada sem compreensão do seu perfil aromático e estrutural — não é melhor vinho do que um vinho internacional bem feito. É apenas um vinho com nome local.
O trabalho real com castas autóctones exige conhecimento acumulado. Saber como cada casta responde à poda. Como reage ao stress hídrico. Qual o ponto de maturação ideal. Como se comporta na fermentação e no estágio. Isto não se aprende num seminário. Aprende-se ao longo de anos, em vinha, com erros e acertos.
3. O risco do marketing sem substância
Quando o discurso se antecipa ao conhecimento, criam-se expectativas que o vinho não consegue cumprir. O consumidor compra uma garrafa de Baga ou de Alvarinho com grandes expectativas — e se o vinho não corresponder, não culpa o produtor. Culpa a casta. E a casta sai prejudicada.
O mesmo acontece com as castas raras, em processo de recuperação. Há um entusiasmo legítimo na redescoberta de variedades quase extintas. Mas entusiasmo sem rigor técnico pode produzir vinhos instáveis, com defeitos mascarados de “carácter”, que confundem mais do que comunicam.
O discurso da autenticidade, quando vazio, faz mais mal do que bem ao próprio património que pretende defender.
4. O que separa o rigor da retórica
O enólogo que trabalha verdadeiramente com castas autóctones sabe explicar — com precisão — porque escolheu aquela casta naquele lugar. Sabe o que a distingue, quais são as suas limitações e como as vai gerir. Sabe o que está a perder ao escolhê-la e o que ganha com essa escolha.
Este nível de conhecimento raramente aparece nas notas de prova ou nos press releases. Aparece na consistência do vinho ao longo dos anos. Na coerência entre a casta, o terroir e o estilo de vinificação. Na capacidade de produzir um vinho que só poderia existir naquele lugar, com aquela uva, nas mãos daquele produtor.
É isso que transforma a casta autóctone em verdadeiro argumento de identidade — não a sua inclusão num rótulo.
5. As castas autóctones que merecem atenção
Em Portugal, há várias castas que demonstram o que significa trabalhar com rigor. A Baga, na Bairrada, exige do produtor uma paciência e um conhecimento imensos — mas quando bem tratada, produz tintos de acidez, estrutura e longevidade raros. O Alvarinho, nos Vinhos Verdes, só expressa o seu melhor em solos específicos e com cuidados de viticultura muito precisos. O Encruzado no Dão revelou, nas últimas duas décadas, uma capacidade para brancos de guarda que surpreende até os mais céticos.
O que estas castas têm em comum é que precisam de rigor para dar o melhor de si. Não são castas fáceis. São castas exigentes. E é exatamente essa exigência que torna os melhores exemplos únicos.
6. O papel do enólogo na preservação do património
Preservar o patrimônio vitivinícola não é apenas plantar castas antigas. É mantê-las vivas com dignidade. É desenvolver o conhecimento para as trabalhar bem. É transmiti-lo às gerações seguintes.
Quando um enólogo se compromete com uma casta autóctone difícil, está a fazer um investimento de longo prazo. Está a dizer que o vinho que vai produzir daqui a dez anos vai ser melhor do que o de hoje, porque vai conhecer melhor aquela uva, aquele solo, aquele microclima.
Esse é o verdadeiro trabalho de preservação do património. Não o discurso. O rigor.
7. Conclusão — Autóctone é ponto de partida, não de chegada
As castas autóctones são um ponto de partida extraordinário. Portugal tem um tesouro de diversidade genética que poucos países no mundo podem igualar. Mas esse tesouro só tem valor se for trabalhado com seriedade.
A próxima vez que escolher um vinho de casta autóctone, não o compre pelo nome da uva. Compre-o pelo produtor que demonstra conhecer o que faz — e pelo vinho que prova que esse conhecimento se traduz no copo.
Autóctone não é virtude. É responsabilidade.